quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

" Sol da Meia Noite " - Stephenie Meyer – Rascunho 01 ao 12


Capítulo 01 - À primeira vista


Esse era o momento do dia em que eu queria ser capaz de dormir.
Ensino Médio.
Ou era purgatório a palavra correta? Se houvesse alguma maneira de reparar meus
pecados, isso deveria contar de alguma forma na balança. O tédio não foi algo ao qual
eu me acostumei; cada dia parecia impossivelmente mais monótono que o anterior.
Eu acredito que essa era minha maneira de dormir – se dormir era definido pelo
estado inerte entre os períodos de atividade.
Eu encarei as rachaduras correndo pelo concreto no canto mais distante do
refeitório, imaginando padrões entre eles que não estavam lá. Era uma forma de
desconectar as vozes que tagarelavam como o jorro de um rio dentro de minha cabeça.
Muitas centenas dessas vozes que eu ignorava no tédio.
Quando se tratava de mentes humanas, eu já tinha ouvido de tudo e mais um
pouco. Hoje, todos os pensamentos estavam voltados para o espetáculo trivial da nova
adição ao pequeno corpo estudantil daqui. Não demorou muito ouvi -los todos. Eu tinha
visto o mesmo rosto repetido em mente após mente sob todos os ângulos. Só uma garota
humana normal. A excitação de sua chegada era cansativamente previsível – como
mostrar um objeto brilhante a uma criança. Metade do rebanho masculino já se
imaginava se apaixonando por ela, só porque ela era algo novo para se olhar. Eu tentei
veementemente calá-los.
Só quatro vozes eu bloqueava por cortesia muito mais do que por desgosto: minha
família, meus dois irmãos e duas irmãs, tão acostumados com a falta de privacidade na
minha presença que raramente se importavam. Eu dei a eles toda a privacidade que
pude. Tentei não ouvir se eu podia.
Tentei como pude, mesmo assim... eu sabia.
Rosalie estava pensando, como de costume, sobre ela mesma. Ela viu seu perfil
no reflexo do copo de alguém, e estava meditando sobre sua própria perfeição. A mente
de Rosalie era uma piscina rasa com poucas surpresas.
Emmett estava fulminando por causa de uma queda de braço que havia perdido
para Jasper durante a noite. Isso tomaria dele toda a sua limitada paciência para
agüentar até o final do dia escolar e orquestrar uma revanche. Eu nunca realmente me
senti intrometido ouvindo os pensamentos de Emmett, porq ue ele nunca pensou em algo
que ele não diria em voz alta ou não colocaria em pratica. Talvez eu só me sentisse
culpado por ouvir os pensamentos dos outros porque eu sabia que haviam coisas lá que
eles não queriam que eu soubesse. Se a mente de Rosalie era uma piscina rasa, a de
Emmett era um lago sem sombras, clara como vidro.
E Jasper estava... sofrendo. Eu suprimi um suspiro.
Edward. Alice chamou meu nome em sua cabeça, e teve minha atenção imediata.
Era como ter meu nome chamado em voz alta. Eu estava f eliz que meu nome
tinha saído de moda atualmente – tinha sido irritante; em qualquer momento, quando
qualquer um pensava em qualquer Edward minha cabeça se virava automaticamente...
Minha cabeça não virou agora. Alice e eu éramos bons nessas conversas pri vadas. Era
raro qualquer um nos pegar. Eu mantive meus olhos nas linhas do concreto.
Como ele está agüentando? ela me perguntou.
Eu contraí um pouco meus músculos, só uma pequena mudança com minha boca.
Nada que chamasse a atenção dos outros. Eu poderia fa cilmente estar me contraindo de
tédio.
O tom mental de Alice estava alarmado agora, e eu vi em sua mente que ela
estava olhando para Jasper em sua visão periférica. Existe algum perigo? Ela procurou
num futuro imediato, mergulhando por visões de monotonia para a fonte da minha
expressão.
Eu virei minha cabeça para a esquerda devagar, como se estivesse olhando para
os tijolos da parede, suspirei, e então para a direita, de volta para as rachaduras no
teto. Só Alice sabia que eu estava balançando a cabeça.
Ela relaxou. Me deixe saber se isso ficar muito ruim.
Eu só movi meus olhos, para o teto acima, e de volta para baixo.
Obrigada por estar fazendo isso.
Eu estava feliz por não poder respondê -la em voz alta. O que eu diria? “O prazer
foi meu?” Não era assim. Eu não gostava de ouvir Jasper relutante. Era mesmo
necessário fazer experiências assim? Não seria o melhor caminho admitir que ele nunca
será capaz de agüentar a cede como o resto de nós pode, e não forçar seus limites? Por
que flertar com o desastre?
Tinham se passado duas semanas desde nossa ultima viagem de caça. Esse tempo
não era uma imensa dificuldade para o resto de nós. Um pouco desconfortável
ocasionalmente – se um humano andasse muito próximo, se o vento soprasse na direção
errada. Mas humanos raramente se aproximavam. Seus instintos diziam a eles o que suas
mentes conscientes nunca entenderiam: nós éramos perigosos.
Jasper estava muito perigoso agora.
Nesse momento, uma pequena garota parou no final da mesa mais próxima da
nossa, para conversar com uma amiga. Ela jogou seu cabelo curto, cor de areia,
passando os dedos por ele. Os aquecedores sopraram seu cheiro para nossa direção. Eu
estava acostumado com a maneira com a qual o cheiro me fazia sentir – a dor seca na
minha garganta, o anseio vazio no meu estomago, a contração automática dos meus
músculos, o excesso de veneno fluindo na minha boca...
Isso era tudo bem normal, geralmente fácil de ignorar. Só foi difícil agora, com os
sentimentos fortes, dobrados, enquanto eu monitorava a reação de J asper. Sedes
gêmeas, não somente a minha.
Jasper estava deixando sua imaginação passear. Ele estava imaginando isso –
imaginando si mesmo levantando de seu assento próximo de Alice e ficando ao lado da
pequena garota. Pensando em se inclinar para baixo, co mo se fosse sussurrar em seu
ouvido, e deixando seus lábios tocarem a curva da garganta dela. Imaginando como a
sensação do fluido quente do pulso dela por baixo da fina camada de pele seria em baixo
da sua boca.
Eu chutei a cadeira dele.
Ele encontrou meu olhar por um minuto, e depois olhou para baixo. Eu podia
ouvir vergonha e rebeldia em guerra na sua mente.
“Desculpe”, Jasper murmurou.
Dei de ombros.
“Você não ia fazer nada”, Alice murmurou para ele, amenizando seu embaraço.
“Eu podia ver isso.”
Eu lutei contra a careta que denunciaria sua mentira. Nós tínhamos que
permanecer juntos, Alice e eu. Não era fácil, ouvir vozes ou ver cenas do futuro. As duas
aberrações entre aqueles que já eram aberrações. Nós protegíamos o segredo um do
outro.
“Ajuda um pouco se você pensar neles como pessoas”, Alice sugeriu, sua voz alta
e musical, rápida demais para ouvidos humanos entenderem, se algum estivesse próximo
demais para ouvir. “O nome dela é Witney, ela tem uma irmãzinha bebe que ela adora.
A mãe dela convidou Esme para essa festa no jardim, se lembra?”
“Eu sei quem ela é.” Jasper disse curtamente. Ele se virou para olhar por uma
das pequenas janelas que eram colocadas bem embaixo das vigas, ao longo da sala. Seu
tom terminou a conversa.
Ele teria que caçar hoje a noite. Era ridículo se arriscar assim, tentando testar
sua forçar, aumentar sua resistência. Jasper devia apenas aceitar suas limitações e
trabalhar com elas. Seus hábitos antigos não condiziam com nosso estilo de vida
escolhido; ele não devia se esforç ar tanto desse jeito.
Alice suspirou silenciosamente e levantou, pegando sua bandeja de comida – seu
acessório, era o que era – com ela e deixando-o sozinho. Ela sabia quando ele estava
cheio de seu encorajamento. Apesar de Rosalie e Emmett serem mais aber tos com seu
relacionamento, eram Alice e Jasper que sabiam o humor um do outro como seu próprio.
Como se eles também pudessem ler mentes – apenas um do outro.
Edward Cullen.
Reação de reflexo. Eu me virei para o som do meu nome sendo chamado, apesar
de não estar realmente sendo chamado, só pensado.
Meus olhos se encontraram por uma fração de segundo com um grande par de
olhos humanos, cor-de-chocolate postos num rosto pálido, em forma de coração. Eu
conhecia esse rosto, apesar de eu mesmo nunca tê -lo visto antes. Ele esteve em quase
todas as cabeças humanas hoje. A nova aluna, Isabella Swan. Filha d chefe de policia da
cidade, trazida para viver aqui sob uma nova situação de custódia. Bella. Ela corrigiu
todos que usaram seu nome inteiro...
Olhei para longe, entediado. Me levou um segundo para perceber que não havia
sido ela quem pensou no meu nome.
É claro que ela já está se apaixonando pelos Cullens , eu ouvi o primeiro
pensamento continuar.
Agora reconheci a “voz”. Jessica Stanley – havia um tempo desde a ultima vez
que ela me perturbou com seu bate -papo interior. Foi um alívio quando ela se curou
daquela paixonite deslocada. Era praticamente impossível escapar de suas fantasias
constantes, ridículas. Eu desejei, naquela época, que eu pudesse explicar exatamente o
que haveria acontecido se meus lábios, e os dentes atrás deles, tivessem chegado a
qualquer parte próxima dela. Isso teria silenciado aquelas fantasias irritantes. O
pensamento da reação dela quase me fez sorrir.
Grande bem isso vai fazer a ela, Jes sica continuou. Ela sequer é bonita. Eu não
sei porque Erick está olhando... ou Mike.
Ela estremeceu mentalmente no ultimo nome. Sua nova paixonite, o
genericamente popular Mike Newton, era completamente inconsciente dela.
Aparentemente, ele não era tão inconsciente sobre a nova garota. Como a criança com o
objeto brilhante de novo. Isso trouxe uma ponta maligna nos pensamentos de Jessica,
apesar de ela ser aparentemente cordial com a recém-chegada enquanto explicava para
ela o conhecimento comum sobre minh a família. A estudante nova deve ter perguntado
sobre nós.
Todo mundo também está olhando pra mim hoje, Jessica pensou
presumidamente por um lado. Foi uma sorte Bella ter tido duas aulas comigo hoje...
Aposto que Mike vai querer me perguntar o que ela –
Eu tentei bloquear o pensamento insignificante pra fora da minha cabeça antes
que a insignificância pudesse me deixar louco.
“Jessica Stanley está dando para a nova garota Swan toda a roupa suja sobre o
clã dos Cullen,” eu murmurei para Emmett como distração . Ele riu por baixo da
respiração. Eu espero que ela esteja fazendo isso direito , ele pensou.
“Muito sem criatividade, na verdade. Só a idéia superficial do escândalo. Nem um
pingo de horror. Estou um pouco desapontado.”
E a garota nova? Ela está desapont ada com a fofoca também?
Eu parei para ouvir o que essa garota nova, Bella, pensou sobre a história de
Jessica. O que ela via quando olhava para essa família estranha, com peles pálidas, que
era universalmente evitada?
Era parte da minha responsabilidade s aber sua reação. Eu agia como um
observador, pela falta de uma palavra melhor, para a minha família. Para proteger -nos.
Se qualquer um começasse a suspeitar, eu poderia dar um aviso prévio e uma solução
fácil. Isso acontecia ocasionalmente – algum humano com uma imaginação ativa veria
em nós os personagens de um livro ou filme. Geralmente eles interpretam errado, mas é
melhor mudar para um lugar novo do que arriscarmos um exame minucioso. Muito, muito
raramente, alguém adivinhava corretamente. Nós não damo s a eles a chance de
testarem suas hipóteses. Nós simplesmente desaparecemos, para nos tornarmos nada
mais que uma memória assustadora...
Eu não ouvi nada, embora eu tenha ouvido próximo aonde o frívolo monólogo
interno de Jessica continuava efusivamente. Era como se não houvesse ninguém sentado
ao lado dela. Que peculiar, será que a garota tinha ido embora? Não parecia ser isso, já
que Jessica continuava tagarelando para ela. Olhei pra cima para checar, me sentindo
desequilibrado. Checar o que minha “audiç ão” extra podia me dizer – era algo que eu
nunca tive que fazer.
De novo meu olhar se encontrou com aqueles mesmos olhos grandes e castanhos.
Ela estava sentada exatamente onde esteve antes, e olhando para nós, uma coisa
natural de se fazer, eu supus, já que Jessica continuava entretendo-a com as fofocas
locais sobre os Cullens.
Pensar em nós, também, seria natual.
Mas eu não conseguia ouvir um sussurro.
Um vermelho convidativo e quente coloriu suas bochechas quando ela olhou para
baixo, longe da gafe embaraçosa de ser pega encarando um estranho. Foi bom que
Jasper ainda estivesse olhando para fora da janela. Eu não gostava de imaginar o que
esse fácil agrupamento de sangue faria com seu controle.
As emoções estavam tão claras no seu rosto como se estivesse m saindo em
palavras de sua testa: surpresa, como se inconscientemente ela absorvesse os sinais das
diferenças entre sua raça e a minha, curiosidade, ouvindo o conto de Jessica, e algo
mais... fascinação? Não seria a primeira vez. Nós éramos lindos para el es, nossas presas.
Então, finalmente, embaraço, quando eu a peguei me encarando. Ainda assim, embora
seus pensamentos tenham sido tão claros em seus olhos estranhos – estranhos por causa
da intensidade deles; olhos castanhos normalmente parecem rasos em su a escuridão – eu
não podia ouvir nada além de silêncio do lugar em que ela estava sentada.
Absolutamente nada.
Eu senti um momento de inquietação.
Isso era algo que eu nunca tinha encontrado antes. Tinha algo errado comigo? Eu
senti exatamente como me sempre sentia. Preocupado, escutei melhor.
Todas as vozes que eu havia bloqueado de repente estavam gritando em minha cabeça.
me pergunto que tipo de música ela gosta... talvez eu possa mencionar ...
aquele novo CD... Mike Newton estava pensando, a duas mesas de distância – fixado em
Bela Swan.
Olhe para ele a encarando. Não é suficiente que ele tenha metade das garotas da
escola esperando por ele para... Eric Yorkie pensava acidamente, também relacionado a
garota.
tão nojento. Dava pra pensar que ela é famosa ou algo assim... Até Edward...
Cullen, encarando... Lauren Mallory estava tão enciumada que seu rosto, de todas as
maneiras, deveria estar escurecido como cor de jade. E Jessica, exibindo sua nova
amiga. Que piada...veneno continuou a ser expelido dos pen samentos da garota.
aposto que todo mundo perguntou isso pra ela. Mas eu gostaria de conversar...
com ela. Vou pensar em uma pergunta mais original... Ashley Dowling meditou.
.talvez ela esteja em minha aula de Espanhol... June Richardson desejou...
toneladas restam pra fazer essa noite! Trigonometria, e o teste de Inglês. Eu...
espero que minha mãe... Angela Weber, uma menina quieta, de quem os pensamentos
eram extraordinariamente doces, era a única naquela mesa que não estava obcecada
com essa tal Bella.
Eu podia ouvir todos eles, ouvir cada coisa insignificante que eles pensavam assim
que passava por suas cabeças. Mas absolutamente nada da nova estudante com olhos
enganosamente comunicativos.
E, obviamente, eu pude ouvir o que ela disse quando falou com J essica. Eu não
precisava ler mentes para poder ouvir sua voz baixa e clara do outro lado do refeitório.
Qual deles é o garoto com o cabelo castanho avermelhado? Eu a ouvi perguntar, olhando
pra mim furtivamente pelo canto dos olhos, só para rapidamente o lhar para longe
quando ela viu que eu continuava encarando.
Se eu tivesse tempo de esperar que ouvir o som de sua voz me ajudaria a
determinar o tom de seus pensamentos, perdidos em algum lugar onde eu não podia os
acessar, eu estava instantaneamente desa pontado. Normalmente, os pensamentos das
pessoas surgem com um tom similar as suas vozes físicas. Mas essa voz calma e tímida
não era familiar, não uma nas centenas de vozes tagarelando em volta do local, isso eu
tinha certeza. Era inteiramente nova.
Oh, boa sorte idiota! Jessica pensou antes de responder a pergunta da garota.
“Esse é o Edward. Ele é lindo, é claro, mas não perca seu tempo. Ele não namora.
Aparentemente nenhuma das garotas aqui é bonita o suficiente para ele.” Ela fungou.
Eu virei minha cabeça para o outro lado, para esconder meu sorriso. Jéssica e suas
amigas de sala não tinham idéia de como eram sortudas por nenhuma delas ser
particularmente apelativa pra mim.
Por baixo do humor passageiro, eu senti um impulso estranho, um que eu não
entendi claramente. Isso tinha algo a ver com o abismo vicioso dos pensamentos de
Jessica, dos quais a nova garota era inconsciente... Eu senti uma estranha urgência de
me colocar entre elas, para proteger essa Bella Swan dos trabalhos obscuros da mente
de Jessica. Que coisa estranha para se sentir. Tentando descobrir as motivações por trás
do impulso, eu examinei a garota mais uma vez.
Talvez isso era só um instinto de proteção há muito enterrado – o forte pelo
fraco. Essa garota parecia mais frágil que seus n ovos colegas de classe. Sua pele era tão
translúcida que era difícil de acreditar que isso oferecia a ela alguma defesa contra
mundo exterior. Eu podia ver o pulsar ritmado do sangue através de suas veias, por baixo
da membrana clara e pálida... Mas eu não devia me concentrar nisso. Eu era bom nessa
vida que escolhi, mas eu estava com tanta sede quanto Jasper e não havia motivo para
convidar a tentação.
Tinha uma fraca linha entre suas sobrancelhas a qual ela parecia não tomar
conhecimento.
Era inacreditavelmente frustrante! Eu podia ver claramente que era
desconfortável para ela sentar lá, conversar com estranhos, ser o centro das atenções.
Eu podia sentir sua timidez pela forma como ela segurava seus ombros aparentemente
frágeis, espremida, como se ela est ivesse esperando uma rejeição a qualquer momento.
E ainda assim, eu só podia sentir, só podia ver, só podia imaginar. Não tinha nada alem
do silêncio vindo dessa garota humana normal. Eu na pude ouvir nada. Por quê?
“Vamos?” Rosalie murmurou, interrompendo meu foco.
Eu desviei o olhar da garota com um sentimento de alivio. Eu não queria
continuar falhando nisso –isso me irritou. E eu não queria desenvolver qualquer interesse
em seus pensamentos secretos simplesmente porque eles estavam escondidos de mim.
Sem duvida, quando eu decifrasse seus pensamentos – e eu iria encontrar uma maneira
de fazê-lo – eles seriam tão insignificantes e mesquinhos como os pensamentos de
qualquer humano. Não valiam o esforço que eu teria que fazer para alcançá -los.
“Então, a novata já está com medo de nós?” Emmett perguntou, ainda esperando
pela minha resposta para a sua pergunta anterior.
Eu dei de ombros. Ele não estava interessado o suficiente para me pressionar por
mais informação. Eu também não deveria estar. Nós nos levanta mos da mesa e saímos
do refeitório.
Emmett, Rosalie e Jasper fingiam serem veteranos; eles saíram para suas aulas.
Eu fui para minha aula de Biologia do segundo ano, preparando minha mente para o
tédio. Era duvidoso que Mr. Banner, um homem sem muito mais que um intelecto
comum, tiraria alguma coisa de sua aula que impressionasse alguém com dois diplomas
em medicina.
Na sala de aula, eu sentei na minha cadeira e deixei meus livros – acessórios, de
novo; eles não tinham nada que eu já não soubesse – espalhados pela mesa. Eu era o
único estudante que tinha uma mesa só pra mim. Os humanos não eram espertos o
suficiente para saberem que eles me temiam, mas seus instintos de sobrevivência eram
o suficiente para mantê-los afastados.
A sala foi enchendo lentamente, enquanto eles voltavam do almoço. Me inclinei
novamente na minha cadeira e esperei o tempo passar. De novo desejei que eu fosse
capaz de dormir.
Porque andei pensando nela, quando Angela Weber escoltou a nova garota pela
porta, o nome dela chamou minha atenção.
Bella parece tão tímida quanto eu. Aposto que hoje é bem difícil pra ela. Eu
queria poder dizer algo... mas isso provavelmente soaria estúpido...
Isso! Mike Newton pensou, virando-se na sua cadeira para ver as meninas entrarem.
Ainda assim, do lugar onde Bella Swan parou, nada. O lugar vazio onde seus
pensamentos deveriam estar me deixou irritado e enervado.
Ela se aproximou, caminhando pelo espaço ao meu lado para chegar a mesa do
professor. Pobre garota; o assento ao meu lado era o único vago. Automaticamente, eu
limpei o que seria o lado dela da mesa, colocando meus livros em pilha. Eu duvidava que
ela se sentiria confortável ali. Seria um longo semestre para ela – naquela aula, pelo
menos. Talvez, entretanto, sentando ao lado dela eu consegui ria descobrir seus
segredos... não que eu tenha precisado de tanta proximidade antes... não que eu fosse
encontrar algo que valesse a pena ouvir...
Bella Swan andou pela brisa de ar quente que vinha do aquecedor na minha
direção.
O cheiro dela me acertou como uma bola, como um taco. Não tinha uma imagem
violenta o suficiente para resumir a força do que aconteceu comigo naquele momento.
Naquele momento, eu não estava nada perto do humano que um dia eu fui; nem
traço do pouco de humanidade que eu usava como máscara para me lembrar.
Eu era um predador. Ela era minha presa. Não existia nada mais no mundo inteiro
além desse fato.
Não tinha uma sala cheia de testemunhas – eles já eram um dano colateral na
minha mente. O mistério dos pensamentos dela foi esquecido. Seus pensamentos não
significavam nada, afinal ela não continuaria pensando neles por muito tempo.
Eu era um vampiro, e ela tinha o sangue mais doce que eu havia cheirado em
oitenta anos.
Eu nunca imaginei que um cheiro como esse poderia existir. Se eu so ubesse que
podia, eu teria procurado por isso há muito tempo. Eu teria passado um pente fino no
planeta por ela. Eu podia imaginar o gosto...
A sede queimou minha garganta como fogo. Minha boca estava ressecada e
desidratada. A onda fresca de veneno não fe z nada para dissipar essa sensação. Meu
estomago retorceu com a fome que era um eco da sede. Meus músculos se contraíram.
Nem um segundo inteiro tinha se passado. Ela ainda estava dando o mesmo passo
que a tinha colocado na brisa em minha direção.
Quando o pé dela tocou o chão, seus olhos viraram para mim, um movimento que
ela claramente queria que fosse furtivo. Seu olhar encontrou o meu, e eu me vi
refletido no vasto espelho dos olhos dela.
O choque do rosto que eu vi ali salvou sua vida por mais alguns duros momentos.
Ela não tornou isso fácil. Quando ela processou a expressão no meu rosto, sangue
enrubesceu suas bochechas de novo, tornando a pele dela a cor mais deliciosa que eu já
tinha visto. O cheiro era uma neblina grossa no meu cérebro. Eu dificil mente conseguia
pensar além disso. Meus pensamentos se enfureciam, resistindo ao controle,
incoerentes.
Ela andou mais apressadamente agora, como se entendesse a necessidade de
escapar. Sua pressa a tornou desastrada – ela tropeçou e cambaleou para frente, quase
caindo na garota sentada na minha frente. Vulnerável, fraca. Até mais que o normal
para um humano.
Eu tentei me focar no rosto que vi nos olhos dela, um rosto que eu reconheci com
repulsa. O rosto do monstro em mim – o rosto que eu combati durante décadas de
esforço e disciplina rígida. Qual fácil ele reapareceu na superfície agora!
O cheiro me rondou novamente, dispersando meus pensamentos e quase me
impelindo da cadeira.
Não.
Minha mão se apertou na beira da mesa, enquanto eu tentava me prender na
cadeira. A madeira não servia para a tarefa. Minha mão quebrou a estrutura e
escorregou, cheia de restos de lascas, deixando as marcas dos meus dedos cravados na
madeira.
Destruir as evidências. Essa era uma regra fundamental. Eu pulverizei
rapidamente as bordas com a ponta dos meus dedos, não deixando nada além de um
buraco raivoso e uma pilha de lascas no chão, que eu escondi com o pé.
Destruir evidências. Dano colateral...
Eu sabia o que tinha que acontecer agora. A garota viria sentar -se ao meu lado e
eu teria que a matar.
Os espectadores inocentes da classe, dezoito outras crianças e um homem, não
poderiam deixar essa sala, tendo visto o que eles logo veriam.
Eu estarreci no pensamento do que eu deveria fazer. Mesmo no meu pior
momento, eu nunca tinha cometido esse tipo de atrocidade. Eu nunca matei inocentes
nessas oito décadas. E agora eu planejava assassinar vinte deles de uma só vez.
O rosto do monstro no espelho riu de mim.
Mesmo que parte de mim estremecesse afastando -se do monstro, outra parte
estava planejando isso.
Se eu matasse a garota primeiro, eu teria apenas quinze ou vinte segundos com
ela antes que os humanos na sala reagissem. Talvez um pouco mais, se eles não
percebessem de primeira o que eu estava fazendo. Ela não teria tempo para grit ar ou
sentir dor; eu não a mataria cruelmente. Era o mínimo que eu podia dar a essa estranha
com o sangue horrivelmente desejável.
Mas depois eu teria que impedi -los de escapar. Eu não teria que me preocupar
com as janelas, muito altas e pequenas para serv ir de escape para alguém. Só a porta –
bloqueio isso e eles estariam presos.
Seria mais devagar e difícil tentar matá -los quando eles estariam em pânico e se
misturando, se movendo no caos. Não era impossível, mas haveria muito mais barulho.
Tempo para muitos gritos. Alguém ouvira... e eu seria forçado a matar ainda mais
inocentes nesse momento obscuro.
E o sangue dela esfriaria, enquanto eu matava os outros.
O cheiro me puniu, fechando minha garganta com a dor secante.
Então as testemunhas primeiro.
Eu mapeei isso na minha mente. Eu estava no meio da sala, a fila mais distante.
Eu pegaria meu lado direito primeiro. Eu poderia morder quatro ou cinco pescoços por
segundo, eu estimei. Eu não faria barulho. O lado direito seria o lado sortudo; eles não
me veriam chegando. Me mover para frente e para trás no lado esquerdo me levaria, no
máximo, 5 segundos para terminar com cada vida desta sala.
Tempo suficiente para Bella Swan ver, brevemente, o que estava chegando até
ela. Tempo suficiente para ela sentir medo . Tempo suficiente talvez, se o choque não
congelasse ela no mesmo lugar, para ela começar um grito. Um grito suave, que não
traria ninguém correndo.
Eu dei um suspiro profundo, e o cheiro era um fogo que corria pelas minhas veias
secas, queimando desde o meu peito até consumir cada impulso de bondade que eu era
capaz de ter.
Ela estava se virando agora. Em alguns segundos, ela se sentaria a centímetros de
mim.
O monstro na minha cabeça sorriu em antecipação.
Alguém fechou uma pasta com força a minha esquer da. Eu não olhei para cima
para ver qual dos humanos condenados era. Mas o movimento mandou uma onda de ar
comum, sem cheiro, passando pelo meu rosto.
Por um curto segundo eu era capaz de pensar claramente. Nesse precioso
segundo, eu vi dois rostos na minha cabeça, lado a lado.
Um era meu, ou ao menos fora: o monstro dos olhos vermelhos que tinha matado
tantas pessoas que eu havia parado de contar. Assassinatos racionais, justificados. Um
assassino de assassinos, um assassino de outros, menos poderosos, mon stros. Era um
complexo de deus, eu sabia disso – decidir quem merecia uma sentença de morte. Era
um compromisso comigo mesmo. Eu me alimentei de sangue humano, mas só pela
definição solta. Minhas vitimas eram, nos seus vários passatempos obscuros,
praticamente tão humanos quanto eu.
O outro rosto era de Carlisle.
Não havia semelhança entre os dois rostos. Eles eram o dia claro e a noite mais
escura.
Não havia razão para eles serem semelhantes. Carlisle não era meu pai no senso
biológico básico. Não dividíamos um traço comum. A semelhança em nossas cores era um
produto do que nós éramos; todo vampiro tinha a mesma pele pálida como gelo. A
similaridade na cor dos nossos olhos era outro ponto – reflexo de uma escolha mutua.
Ainda assim, embora não houvesse bas e para uma semelhança, eu imaginei que
meu rosto tinha começado a refletir o dele, até certo ponto, nos últimos setenta anos
estranhos que eu havia abraçado a escolha dele e seguido seus passos. Meus traços não
haviam mudado, mas parecia para mim que um p ouco da sabedoria dele havia marcado
minha expressão, que um pouco da compaixão dele podia ser traçada no contorno da
minha boca e pontas de sua paciência eram evidentes nas minhas sobrancelhas.
Todos essas pequenas melhoras tinha se perdido na face do mon stro. Em alguns
momentos, não restaria mais nada em mim que refletiria os anos que passei com meu
criador, meu mentor, meu pai em todos os meios que contavam. Meus olhos virariam
vermelhos como o de um demônio; toda a semelhança se perderia para sempre.
Na minha cabeça, os olhos gentis de Carlisle não me julgavam. Eu sabia que ele
me perdoaria por esse ato horrível que eu faria. Porque ele me amava. Porque ele
pensava que eu era melhor do que realmente era. E ele continuaria me amando, mesmo
que eu agora provasse que ele estava errado.
Bella Swan sentou na cadeira ao meu lado, seus movimentos rígidos e
desajeitados – com medo? –, e o cheiro de seu sangue se transformou numa nuvem
inexorável ao meu redor.
Eu provaria que meu pai estava errado sobre mim. A mi séria desse fato machucou
tanto quanto o fogo na minha garganta.
Eu me inclinei para longe dela com repulsa – revoltado com o monstro sofrendo
para pegá-la.
Por que ela tinha que vir aqui? Por que ela tinha que existir? Por que ela tinha
que arruinar essa pequena paz que eu tinha nessa minha não -vida? Por que essa humana
agravante tinha que ter nascido? Ela me arruinaria.
Eu virei meu rosto para longe dela, enquanto uma repentina violência, um ódio
irracional me lavou por dentro.
Quem era essa criatura? Por que eu, por que agora? Por que eu tinha que perder
tudo porque ela escolheu essa cidade improvável para aparecer?
Por que ela veio aqui!?
Eu não queria ser o monstro! Eu não queria matar essa sala cheia de crianças
indefesas! Eu não queria perder tudo q ue eu havia ganhado durante uma vida de
sacrifícios e negações!
Eu não faria! Ela não poderia me obrigar.
O cheiro era o problema, o cheiro horrivelmente apelativo do sangue dela. Se
houvesse apenas um meio de resistir... se ao menos uma outra rajada de ar fresco
pudesse limpar minha mente.
Bella Swan balançou seus cabelos longos, grossos e cor de mogno na minha
direção.
Ela era insana? Era como se ela estivesse encorajando o monstro! Tentando -o.
Não havia uma brisa amiga para mandar o cheiro para longe de mim agora. Tudo
logo estaria perdido.
Não, não havia uma brisa para ajudar. Mas eu não tinha que respirar.
Parei a corrente de ar para meus pulmões; o alívio foi instantâneo, mas
incompleto. Eu continuava tendo a memória do cheiro em minha cabeça, o gosto disso
no fundo da minha língua. Eu não poderia resistir até mesmo a isso por muito tempo.
Mas talvez eu pudesse resistir por uma hora. Uma hora. Apenas tempo suficiente para
sair dessa sala cheia de vítimas, vítimas que talvez não precisassem ser vítimas. Se eu
pudesse resistir por uma pequena hora.
Era um sentimento desconfortável, não respirar. Meu corpo não precisava de
oxigênio, mais isso ia contra meus instintos. Eu dependia de cheiro mais que meus outros