quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Não tinha uma sala cheia de testemunhas – eles já eram um dano colateral na
minha mente. O mistério dos pensamentos dela foi esquecido. Seus pensamentos não
significavam nada, afinal ela não continuaria pensando neles por muito tempo.
Eu era um vampiro, e ela tinha o sangue mais doce que eu havia cheirado em
oitenta anos.
Eu nunca imaginei que um cheiro como esse poderia existir. Se eu so ubesse que
podia, eu teria procurado por isso há muito tempo. Eu teria passado um pente fino no
planeta por ela. Eu podia imaginar o gosto...
A sede queimou minha garganta como fogo. Minha boca estava ressecada e
desidratada. A onda fresca de veneno não fe z nada para dissipar essa sensação. Meu
estomago retorceu com a fome que era um eco da sede. Meus músculos se contraíram.
Nem um segundo inteiro tinha se passado. Ela ainda estava dando o mesmo passo
que a tinha colocado na brisa em minha direção.
Quando o pé dela tocou o chão, seus olhos viraram para mim, um movimento que
ela claramente queria que fosse furtivo. Seu olhar encontrou o meu, e eu me vi
refletido no vasto espelho dos olhos dela.
O choque do rosto que eu vi ali salvou sua vida por mais alguns duros momentos.
Ela não tornou isso fácil. Quando ela processou a expressão no meu rosto, sangue
enrubesceu suas bochechas de novo, tornando a pele dela a cor mais deliciosa que eu já
tinha visto. O cheiro era uma neblina grossa no meu cérebro. Eu dificil mente conseguia
pensar além disso. Meus pensamentos se enfureciam, resistindo ao controle,
incoerentes.
Ela andou mais apressadamente agora, como se entendesse a necessidade de
escapar. Sua pressa a tornou desastrada – ela tropeçou e cambaleou para frente, quase
caindo na garota sentada na minha frente. Vulnerável, fraca. Até mais que o normal
para um humano.
Eu tentei me focar no rosto que vi nos olhos dela, um rosto que eu reconheci com
repulsa. O rosto do monstro em mim – o rosto que eu combati durante décadas de
esforço e disciplina rígida. Qual fácil ele reapareceu na superfície agora!
O cheiro me rondou novamente, dispersando meus pensamentos e quase me
impelindo da cadeira.
Não.
Minha mão se apertou na beira da mesa, enquanto eu tentava me prender na
cadeira. A madeira não servia para a tarefa. Minha mão quebrou a estrutura e
escorregou, cheia de restos de lascas, deixando as marcas dos meus dedos cravados na
madeira.
Destruir as evidências. Essa era uma regra fundamental. Eu pulverizei
rapidamente as bordas com a ponta dos meus dedos, não deixando nada além de um
buraco raivoso e uma pilha de lascas no chão, que eu escondi com o pé.
Destruir evidências. Dano colateral...
Eu sabia o que tinha que acontecer agora. A garota viria sentar -se ao meu lado e
eu teria que a matar.
Os espectadores inocentes da classe, dezoito outras crianças e um homem, não
poderiam deixar essa sala, tendo visto o que eles logo veriam.
Eu estarreci no pensamento do que eu deveria fazer. Mesmo no meu pior
momento, eu nunca tinha cometido esse tipo de atrocidade. Eu nunca matei inocentes
nessas oito décadas. E agora eu planejava assassinar vinte deles de uma só vez.
O rosto do monstro no espelho riu de mim.
Mesmo que parte de mim estremecesse afastando -se do monstro, outra parte
estava planejando isso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário